Crítica | Rainhas do Crime


Rainhas do Crime é adaptação cinematográfica da HQ The Kitchen, da Vertigo; a história se passa em Nova York, no início dos 1978. Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss) são casadas com mafiosos irlandeses, que comandam os negócios em Hell's Kitchen. Quando eles são presos pela polícia, o trio fica a mercê de Little Jackie (Myk Watford), o novo chefão local, que se recusa a lhes dar o dinheiro necessário para seu sustento. Então, Kathy, Ruby e Claire decidem unir forças e tomar uma atitude, desistem de ficar a mercê de mais um homem que não se importa com elas, e irem atrás daquilo que precisam. Oferecendo apoio e proteção a pequenos comerciantes locais, elas começam o seu próprio negócio, sua própria máfia. Com o tempo, o poder das mulheres cresce ao ponto não só de incomodar Little Jackie, mas também chamar a atenção da máfia italiana.

Só pela sinopse a gente já percebe que é um filme, incrível, com uma ótima história e super necessário; mostra mulheres em papéis que não estamos acostumados a ver dentro da nossa ; a gente estamos mais familiarizados a ver homens em posições de poder, comandando máfias, homens ocupando posições onde as pessoas sentem medo deles; mas dificilmente vemos mulheres ocupando tais posições, onde as demais pessoas obedecem, e temem mulheres.

Além da importância em se ter a representatividade feminina em papéis que ultrapassem a cozinha ou o shopping, o filme mostra bem outras problemáticas que nós mulheres enfrentamos, principalmente na década de 70, que existe um cenário de uma recente consolidação do movimento feminista; nesse contexto as mulheres sofreram diversos tipos de agressões, e a tendência é o silêncio, principalmente em uma cenário americano, onde mulheres negras tinham uma posição social muito mais limitada, sofrendo repressão em diversos âmbitos, políticos e também de seus maridos. Esse é um dos pontos abordados dentro do filme através de Ruby, que é casada com o chefe da máfia, que insinua ter se casado com ela para mostrar uma certa rebeldia para a sua família, usando-a como um objeto, e não por amor; isso mostra um pouco da solidão da mulher negra, que por vezes é usada como objeto seus parceiros, e como para a mulher negra existe uma dificuldade maior para se chegar em lugares desejados.

A violência doméstica se mostra no filme, não apenas como um obstáculo a ser ultrapassado, mas algo que molda o carácter de uma das personagens, a personagem interpretada pela Elisabeth Moss, Claire, sofre constantes agressões por parte de seu marido; no início do filme Claire se mostra uma mulher frágil, que tinha medo e vivia quase em cárcere privado. O desenvolvimento dessa personagem tem um arco muito interessante, porque o medo que ela sentia do seu marido fez com que ela busque de uma forma um tanto quanto radical se tornar uma mulher mais independente, que não necessita de um homem para se defender; essa busca acaba tendo um lado meio psicótico, porém interessante a ser explorado na personagem, mostrando que ela encontra na vingança a sua força (não que seja algo a ser glorificado, nem copiado; mas para a personagem funciona bem no sentido de um desenvolvimento bem elaborado de personagem).

A narrativa da personagem a terceira, Kathy, é de uma mulher que tem dois filhos e o marido que até então parece bondoso. Quando seu marido é preso, Kathy vai procurar emprego e é duramente dispensada por ser mãe; e sem saída ela decide começar criar espaço para ela e suas amigas onde as mesmas não tinham direito nem de falar, o tempo todo seus filhos são jogados na cara dela, que ela não deveria fazer outra coisa além de ser mãe, que ela deveria simplesmente cuidar dos seus filhos, não cuidar de si mesma. 

Outros personagens que é legal darmos um certa atenção aqui são os três maridos, cada um representa uma forma de agressão a mulher. O marido de Ruty faz constantes agressões psicológicas, chamando-a de  burra, preguiçosa; o marido de Claire é um homem super agressivo, que mantém ela dentro de cárcere privado, e bate muito nela o que a deixa com medo constantemente; o marido de Kathy, que até então tinha se mostrado um dos maridos mais bonzinhos da narrativa, se mostra no final um homem que não consegue ver a sua mulher acima dele.

A fotografia do filme também é incrível, apesar de ter uma leveza em certos momentos, ela traz uma rusticidade para narrativa, e junto com a trilha sonora (que tem músicas I - N - C - R - Í - V - E - I - S) ambientam muito bem a Nova York dos anos 70.

Rainhas do Crime é um filme de mulheres feito não somente para mulheres; apesar de abordar bastante temas do movimento feminista, o filme tem uma carga de violência muito presente em narrativas, que até então era considerado algo do mundo masculino, mostrando que mulher pode ocupar o lugar que quiser, fazer os filmes que quiser, contar as histórias que quiser, usar as roupas se quiser, dominar o poder que quiser.
Esse filme eu não perderia, e vocês, vão deixar essa passar?

Rainhas do crime estreia no cinemas brasileiros dia 8 de agosto.

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