Lançado em 2007, o filme não agradou muitos os fãs da série Fronteiras do Universo e acredito que até aqueles que nunca leram a série, perceberam que uma história que tinha grande potência foi mal aproveitada e isso se deu por diversos motivos que tentarei listar abaixo.
Como uma leitora apaixonada por histórias, sempre espero que os atores incorporarem as características dos personagens, porque às vezes as mudanças físicas não interferem muito, desde que sejam condizentes, mas a essência do personagem é obrigatória estar presente na tela. No entanto, não foi isso que vi ao assistir A Bússola de Ouro, que mais me decepcionou foi a atuação de Daniel Craig como o feroz Lorde Asriel, um homem que têm presença e inspira autoridade e o que vimos foi um homem com espírito aventureiro e sem nenhuma autoridade.
A Eva Green como a feiticeira Serafina Pekkala, que é uma rainha de um dos clãs mais poderosos, parecia no filme uma personagem que só aparecia em momentos de luta ou guerra, como se essa fosse a única utilidade da feiticeira, quando na verdade seu papel na história é bem importante. Faltou o carisma e todas as outras características que fazem parte do espírito da personagem.
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| Divulgação New Line Cinema |
A Sra. Coulter, interpretada por Nicole Kidman, foi outra personagem que foi a menos pior do elenco, mas ainda assim faltou explorar melhor a relação dela com seu daemon, o macaco dourado. Ambos são duas criaturas cruéis e compartilham o prazer pela dor. O que vi foi uma mulher que só estava provando ter um poder sobre os outros.
A caracterização dos egípcios também foi uma bela decepção, não encontramos um povo que está a margem, que tem sua própria cultura e história, é um povo da água que também carrega suas verdades, percebemos um pouco do seu diferencial na cena em que Billy Costa diz que seu povo “ escreve a verdade”, o que vemos é apenas um povo selvagem. Nem vou comentar sobre como abordaram John Faa e Farder Coram, porque também foi outra decepção, colocaram o primeiro como um lunático e outro como um apavorado.
Faltou a caracterização de muitos personagens, outro fator foi a falta de aprofundamento nos personagens que fez com que o filme fosse até em certo ponto acelerado, tomamos como exemplo a Lyra que de uma hora deixa de ser a órfã da Faculdade de Jordan e passa a ser uma criança manipulada, depois aventureira e foi avançando para vários momentos de forma rápida.
Essa falta custou um enredo inteiro, já que durante todo o filme não sentimos apego a quase nenhum personagem, não sabemos muito bem as histórias da maioria e nem entendemos a importância de certas ações ou revelações. Quem assiste sem ter lido o primeiro livro, não entende a importância do povo gípcio, do que eles tiveram que enfrentar e resistir para acompanhar Lyra em sua viagem.
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| Divulgação New Line Cinema |
Não vimos a relação de amor entre Lyra e Pan, sobre como os dois são apenas um, não é só na cena em que quase tiveram a interseção que vemos o laço de amor forte entre eles, mas em muitas outras que não foram mostradas ou exploradas durante o filme. Uma das minhas cenas favoritas no livro é quando mostra o que acontece quando o daemon e seu humano alcançam determinada distância de separação.
Muito pouco vimos os laços de afeto entre Lyra e Iorek que vai muito além de um contrato ou dívida que o urso tem para com ela, não assistimos uma relação de amizade e nem percebemos que ambos são parecidos e tem um senso de injustiça parecido. Nem o carinho que a garota cria pelos gípcios.
Outro fator foi o final do longa, eu até aceito mudanças no enredo quando não é possível adaptar certas cenas, mas eu realmente não entendi o porquê de finalizarem o filme daquela maneira, quando o plot twist final ainda iria acontecer e elencar, de forma emocionante, para uma possível continuação. O pior é saber que eles filmaram o final igual do livro, mas deixaram para colocar no segundo filme, que não aconteceu como sabemos.
Quase não há momentos de emoção, acho que a única cena que realmente causou alguma comoção foi o final que fora isso não temos e nem sentimos nenhuma simpatia com os personagens, nem identificação, absolutamente nada. A essência dos personagens e até das cenas perdeu-se em outro Universo.
Como falei em outro post sobre o Philip Pullman, ressaltei sobre as questões trazidas pelo seu universo que podem ser consideradas “heréticas” e o primeiro livro já traz reflexões sobre a influência e poder da Igreja que vai muito além de questões e interesses políticos , que é retratado pelo filme, como uma forma de tentar suavizar e agradar as pessoas crentes e isso foi um verdadeiro tiro no pé, já que o que faz a história ser fascinante e emocionante são as reflexões teológicas sobre a Igreja trazida pelo autor.
O filme no geral torna-se uma história esquecível e nada surpreendente, como se fosse só mais uma história de fantasia, a adaptação foi uma verdadeira interseção com o livro, nos trazendo um roteiro totalmente sem carisma ou autonomia, que só se torna aceitável quando comparado com o livro.
Bem, esses foram alguns fatores que fizeram A Bússola de Ouro não ser um filme tão grandioso quanto os da saga Harry Potter ou Senhor dos Anéis.
E aí, o que acharam? Conta pra gente quais outros fatores também contribuíram para o desastre cinematográfico.



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