Antes de mais nada, “Hebe - A Estrela do Brasil”, é um filme corajoso, não apenas por retratar a biografada com todas as suas contradição, mostrando os defeitos e as peripécias de Hebe, mas por trazer como pano de fundo um evento histórico que condiz extremamente com nossa atual realidade.
O filme traz um recorte muito importante e interessante, retrata a vida da apresentadora a partir de 82, e finaliza por volta dos anos 90. O interessante a se ressaltar é que nessa época o Brasil vivia a sua redemocratização, perto do término do regime de exceção da ditadura civil-militar e da reunião da assembleia constituinte para redigir o texto que serviria de base para a democracia contemporânea. Nesse período o Brasil escondia a existência de um dos monstrinhos da nossa (nenhum pouco saudosa) ditadura, a censura.
Vemos no início do filme Hebe lutando contra a censura, e até mesmo questionando a liberdade que diziam ganhar força na época. Sempre muito verdadeira e fiel aos seus ideais, a apresentadora sofreu diversas ameaças por defender as minorias, levando ao seu programa artistas e personalidades que eram vistas com maus olhos na época (infelizmente ainda temos quem os vejam assim) pelos censores que consideravam o seu programa ao vivo uma ‘tribuna de aliciamento e apologia ao homossexualismo’. No seu palco subiam figuras de representatividade LGBTQI+, mulheres independentes e seguras de si (viva Dercy Gonçalves) e nele Hebe discorria sua opinião em defesa dos menos afortunados; discurso e representações que incomodavam muito os sensores (aparentemente tais pessoas saíram de suas tumbas, pois vemos o mesmo incômodo atualmente).
O que mais impressiona é que o filme retrata, em sua narrativa de pano de fundo, casos que ocorreram há mais ou menos 30 anos; o que me vem à mente devido ao fato da identificação com a nossa realidade é uma parte da música de Cazuza ( que também tem seu momento dentro do filme) “Eu vejo o futuro repetir o passado”. É um retrato (triste) do tempo em que vivemos, onde as mesmas bandeiras erguidas no passado permanecem atuais: a defesa de minorias, a epidemia de violência doméstica, a censura que retorna às manchetes etc. Tais pautas não buscam corromper a bondade do homem, mas trazer essa bondade de volta; porém o autoritarismo não suporta opiniões contrárias, e tenta silenciá-las custe o que custar.
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| Divulgação Warner Bros |
Recebendo ameaças regulares, Hebe, já cansada de ser explorada e censurada, pede demissão da emissora Bandeirantes e muda para o SBT, onde lutará contra outra forma de censura, ameaçada por parlamentares contra suas posições políticas, Hebe luta judicialmente por seu direito de liberdade de expressão. Tendo isto em mente, o roteiro de Carolina Kotscho – que também escreveu a minissérie em 10 episódios com a personagem que estreará no próximo ano – explorou a transição entre emissoras de Hebe. Tal trama, que serve como fio condutor da narrativa apesar de não tão aprofundada, tem como sua essência o papel gerido pela apresentadora em defesa dos direitos da comunidade LGBTQI+. “Qual o problema em ser bicha?” Questionava Hebe motivada pelos performers com quem dividia palco, seu cabeleireiro e ainda pelo filho (Horowicz), cuja homossexualidade é sugerida, apesar de não confirmada.
A narrativa aborda também o encerramento do casamento de Hebe com Lélio (Marco Ricca), por causa do ciúme doentio e violento do marido. Aqui abro espaço para elogiar a atuação do ator que torna seu personagem uma figura amorosa, quando quer, e patética, violenta, machista e digna de raiva, quando consumido por ciúmes. Uma crítica que se espera é a de ser favorável à Hebe como figura pública, mas o roteiro ao menos não peca ao tratá-la como ser humano, retratando o consumo excessivo de álcool – sugerindo que poderia existir um vício -, e a sensibilidade diante de fatos que não dependem de qual seja sua ideologia política, mas de caráter e moral. E Andrea Beltrão é muito competente em encarnar a apresentadora, tanto física, quanto emocionalmente, proporcionando junto ao glamour em frente à televisão a humanização detrás dela. Não se pode esquecer também da presença de seu braço direito de toda a vida, Claudio Pessutti, sobrinho de Hebe, e que é interpretado por Danton Mello com delicadeza.
“Hebe - A Estrela do Brasil” tem um ritmo fluido, combinando fortes momentos dramáticos (as crises com o marido, o discurso às câmeras se dirigindo ao público) com situações hilárias resultantes da espontaneidade da apresentadora. A sequência em que Hebe escolhe seu novo cenário no SBT, por exemplo, tirou boas risadas do público. O filme é também uma viagem à televisão brasileira dos anos 80, com as figurações dos intérpretes de Sílvio Santos, Chacrinha (Otávio Augusto, em vez de Stepan Nercessian) Roberto Carlos, Nair Belo e Lolita Rodrigues. Um trabalho incrível de direção de arte, uma riqueza de detalhes da mansão onde habita, diferenciação dos estúdios Bandeirantes e SBT, e até mesmo nas festas e lugares frequentados por Hebe. Não podemos deixar passar os figurinos e penteados esplendorosos.
A direção de fotografia extrair o melhor de tantos elementos em cena, demonstrando um controle invejável do tempo e dos espaços, construindo cenas belíssimas, além de alguns instantes memoráveis como a dança com Lélio, feita por um plano aéreo em câmera lenta, a primeira chegada da protagonista em sua casa, utilizando um plano-sequência em que o silêncio, o barulho dos brincos e do salto sobre o chão dizem mais sobre a solidão e o luxo do que qualquer diálogo. As cenas de bastidores, com Hebe controlando o público e os produtores ao mesmo tempo, são especialmente bem montadas. A produção consegue fazer tantos elementos de arte e luz nos parecerem orgânicos dentro do universo criado para contar a narrativa.
Quem emenda tudo isto é a própria Andrea Beltrão, que confere uniformidade à narrativa, e o carinho que temos por esta gracinha da história brasileira. Uma que, mesmo dentro de sua torre de marfim inatingível, ainda percebia que antes de tudo seu telespectador é humano e merece ser tratado com dignidade.
“Hebe – A Estrela do Brasil” nos mostra que, por trás da apresentadora havia uma mulher com problemas pessoais, mas que nunca deixou de ser fiel aos seus princípios. Eu amei ver essa ‘gracinha’ no cinema, e espero que todos possam apreciar esse trabalho.
O longa estreia dia 26 de setembro nos cinemas
Por Stefany Gomes


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