O Pintassilgo é um filme de perfil clássico, uma adaptação do livro best-seller internacional que rendeu o prêmio Pulitzer à sua autora, Donna Tartt. Neste novo trabalho do diretor John Crowley, existe uma busca constante na dialogação entre estética e narrativa visual a fim de retratar o momento de vida e os interesses do jovem Theo Decker, traumatizado desde a infância devido à morte da mãe em um atentado terrorista no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Tal tragédia não muda apenas a juventude de Theo, mas define o seu futuro.
Theo teve sua vida transformada para sempre, a perda da mãe lhe mostrou realidades até então muito desconhecidas. Através de um anel de família entregue em meio ao caos por um desconhecido, ele chega a Hobie (Jeffrey Wright), um vendedor e antiguidades que irá lhe apresentar a arte e paixão pelas artes clássicas, que também é o tutor de Pippa (Aimee Laurence), outra sobrevivente. Theo é temporariamente abrigado pela família da senhora Barbour (Nicole Kidman), de um requinte mais relacionado ao bom gosto que à arrogância. O conforto recebido nestes dois ambientes aos poucos desperta em Theo o interesse pelo antigo.
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| Divulgação Warner Bros |
O Pintassilgo transita em duas linhas temporais, acompanhando Theo quando criança (Oakes Fegley), nos mostrando como acontecimentos de nossa infância emolduram nossa personalidade, e quando adulto (Ansel Elgort), que nos apresenta um adulto quebrado, e influenciado por suas dores e traumas, a também consumido pela culpa e sentimentos confusos. A narrativa alterna entre estes momentos a todo instante, assimilando causa e consequência em vários âmbitos acerca da vida de Theo. Em especial, o apreço consolador que nutre pelo quadro O Pintassilgo, por ele levado do Metropolitan em meio à confusão instaurada em decorrência do atentado terrorista.
Quando as coisas parecem se ajeitar na vida de Theo, seu pai até então ausente (Luke Wilson) aparece para mudar não apenas a vida de Theo, mas também a estética do filme. A mudança para Las Vegas, migrando para o deserto em um convívio mais "popular", por assim dizer. Tal mudança introduz na vida de Theo outra figura fundamental, Boris (Finn Wolfhard), que tem um sotaque estranhíssimo e perfil contestador; a amizade entre Boris e Theo traz vida ao longa-metragem, gerando saborosos momentos politicamente incorretos que tão bem definem a adolescência.
Em uma história onde tudo simplesmente se condensa, some e se desfaz em um piscar de olhos, nossos corações almejam por mais detalhes, e pela felicidade na vida de Theo, coisa que a narrativa não entrega; ele encontra momentos de uma singela paz em meio a suas dores e traumas de maneiras destrutivas, e que deixam cicatrizes em sua personalidade de forma bem explicita. Acredito que essa seja uma das discussões do filme, a influência de acontecimentos em decisões que podem prejudicar nosso futuro. Mas como diz Boris no filme, “É a vida, não é?”.
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| Divulgação Warner Bros |
Seria bobagem não apreciar o trabalho artístico que persegue a construção da história, a paleta de cores corresponde às tonalidade usada no quadro que dá nome ao filme. Em todo o momento e em cada detalhe as cores estão presentes, até mesmo o sutil vermelho bordô que se aproxima do bico do pássaro. A fotografia usa de uma iluminação constante e sublime, que acompanha tanto a inocência quanto a quebra dela na vida de Theo. Certamente o filme foi feito para olhos atentos e corações sensíveis.
Grandioso como história, O Pintassilgo é um filme que tem muito a contar para quem sabe ouvir, um drama sutil e de detalhes tão tênues que são capazes de tocar nossas chagas e que dialoga com realidades vividas. Conduzido com elegância por John Crowley nesta requinte apresentação, o filme entrega uma rica e valorosa estética incontestável, refletido também nas alternâncias de ambientação vistas em cena. Não sendo uma história apelativa, as emoções são intensas para os personagens, mas o expectador apenas as observa, não sente com tanta intensidade, o que acredito ser um ponto positivo, assim somos capazes de compreender as consequências com a mente, e não apenas com o coração, em uma história onde se perde absolutamente tudo, em um mero piscar de olhos, nossos olhos permanecem a todo o tempo atentos.
Por Stefany Gomes



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