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| Divulgação Netflix |
A Netflix lança nesta quinta-feira (14/11) seu filme mais caro, mais longo e com mais chances de vencer nas principais categorias do Oscar. Em “O Irlandês”, o streaming reúne o diretor Martin Scorsese, tendo em sua carreira obras que inspiram gerações, e vencedor de uma estatueta em 2007, e três atores que também já ganharam Oscars: Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci.
Foram investidos R$ 726,7 milhões para produzir o filme, tendo três horas e meia de duração, o que vai muito além das duas horas que um longa costuma ter. Mas é um tempo que vale a pena ser investido, toda a narrativa é uma aula de construção narrativa e de personagem.
Segundo o site Gold Derby, que analisa a probabilidade de cada longa no Oscar, o de Scorsese é cotado para indicações a melhor filme, diretor, ator (De Niro), coadjuvante (Pacino e Pesci), roteiro adaptado, edição, fotografia e design de produção.
O Irlandês é baseado no livro “I Heard You Paint Houses”, em tradução livre “eu ouvi dizer que você pinta casas”, um código para dizer que a pessoa cometia assassinatos, no Brasil o livro ganhou o nome “O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia” e pode ser encontrado no site da Amazon.
A obra foi escrita pelo jornalista norte-americano Charles Brandt, que recebeu o diário de Frank "O Irlandês" Sheeran pouco antes que o mafioso morresse, em 2003. Ou seja, trama é baseada em acontecimentos reais.
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| Divulgação Netflix |
A partir da envolvente história de Frank Sheeran o livro nos mostra os bastidores da vida de um matador de aluguel, que discorre também sobre outros notórios assassinatos e proporciona uma rara visão de como funciona a Máfia. Ao longo de quase cinco anos de entrevistas gravadas, Frank Sheeran confessou que fora responsável por mais de vinte e cinco assassinatos a serviço da Máfia, incluindo o de seu amigo Hoffa. Sheeran aprendeu a matar enquanto esteve no Exército dos Estados Unidos; ao voltar para casa, ele se tornou um assassino de aluguel, trabalhando para o lendário chefão do crime Russell Bufalino.
O longa de Scorsese baseado no livro, tem como centro da narrativa a resposta para uma pergunta que intrigou os norte-americanos na década de 1970. O que aconteceu com Jimmy Hoffa: foi morto? Sumiu? Cometeu suicídio?
Sheeran é interpretado por Robert De Niro. O ator de 76 anos foi rejuvenescido digitalmente para dar vida ao veterano da Segunda Guerra Mundial que virou motorista ligado ao sindicato e se tornou um assassino profissional. Joe Pesci da vida a Russell Bufalino, líder da máfia na Pensilvânia. Como Scorsese não quis mudar seus atores para as diferentes fases da narrativa, uma parte considerável do orçamento do filme foi gasto para deixar os atores mais jovens.
A trama começa a ser contada na década de 50 e vai até os anos 90 e finaliza nos anos 2000. A primeira hora do filme se destina a apresentação dos personagens e o funcionamento básico da máfia, o filme engrena a partir da entrada do líder sindical Jimmy Hoffa, interpretado pelo veterano Al Pacino. Sua atuação é intensa, cômica e dá o ritmo que o longa precisa.
Ao juntar Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci em um filme sobre as relações profundas da máfia italiana com a história recente dos Estados Unidos, o diretor Martin Scorsese nos traz uma história que nos faz pensar muito, tanto nas suas decisões, como na forma que decidiu contar a história. Diferente de “Os Bons Companheiros”, clássico de Martin Scorsese, “O Irlandês” adentra em uma abordagem mais específica do mundo da máfia, uma menos enérgica e mais carregada. Aqui, o foco recai mais na melancolia que certas escolhas podem trazer, o de isolamento causado por uma vida dedicada a outras vidas, estas incapazes de preencher buracos cavados por um sacrifício que veio por meio de escolhas pessoais.
Inicialmente dividida em três linhas temporais (duas delas se encontram posteriormente, formando uma só), com o protagonista atuando em diferentes missões ao longo das décadas, “O Irlandês” tem as características já conhecidas de Scorsese: a narração em primeira pessoa falada diretamente ao espectador, o humor peculiar dosado com a tensão explícita em diálogos, a direção que faz a câmera conversar diretamente com o público, com um anfitrião que nos apresenta a sua casa , percorrendo lentamente cada ambiente para que o espectador capte os detalhes, e a vibração que o trio principal (formado por De Niro, Pesci e Al Pacino) emana graças ao desenvolvimento minucioso do roteiro de Steven Zaillian.
Entre diálogos que vão de ‘negócios’ a família, dores pessoais a dinheiro, a tensão é construída de forma única, da mesma forma que a confiança nasce. Pela primeira vez, Scorsese mostra o outro lado da moeda do que realmente é ser um gângster sem a presença de uma trilha-sonora mais animada ou piadas na maior parte do tempo. Nessa história é a melancolia que se faz sempre presente, com uma fotografia dominada por cores frias e nos olhares cansados do trio principal.
Vou abrir um espaço aqui para falar de algo que pode incomodar um pouco o público, o filme é marcado por uma predominância masculina, as mulheres em cena contém pouquíssimas falas, aparecendo na tela, mas sem falar, sem ter uma atitude ativa. Na minha visão isso se dá por ser uma história contada por um homem que não leva em consideração às mulheres em sua vida, sempre as deixando em segundo plano e as valorizando pouco. Quando o personagem pergunta a uma de suas filhas o que ele pode fazer pela família após tantos anos de afastamento, o que ele recebe é o que por muito tempo ofereceu, o silêncio. Tal quietação é demonstrada pela personagem de Anna Paquin, filha e talvez a única mulher da vida de Frank que enxerga desde criança quem o pai e seus companheiros são de verdade. Apesar de ela possuir literalmente uma fala, sua presença diz muito - e é em seu silêncio que reside a porção intimista da história, o maior trunfo que Scorsese projeta diretamente no protagonista no último ato.
O filme é a condensação de uma vida que sobreviveu à guerra e, quando teve a chance de construir laços essenciais, os negligência; assim como é um retrato cru e irreverente sobre amizade, promessas e a importância do senso moral. É Martin Scorsese em total sintonia com a própria essência, o que resulta numa trama dominada por gângsters egocêntricos e gananciosos que, simultaneamente, são homens desprotegidos de si mesmos.
Sem deixar de lado a humanidade, parte do elenco encontra a fragilidade da vida em seu ápice quando o diretor nos mostra fragmentos da solidão e velhice em colisão com memórias do passado. Uma porta entreaberta se encaixa na metáfora de que, finalmente, é a hora de alguém entrar neste universo banhado de sangue e dor.
O Irlandês estreia em 14 de novembro em cinemas selecionados no Brasil e em 27 de novembro na Netflix.
Por Stefany Gomes


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