Resenha | Columbine


Título: 
Columbine
Autor: Dave Cullen
Editora: Darkside Books
Páginas: 480
Gênero: Não Ficção

Sinopse:  dia 20 de abril de 1999 deixou uma marca indelével na história norte-americana. O Massacre de Columbine pode não ter sido o primeiro tiroteio em massa, mas foi o primeiro da era digital — e o primeiro de larga magnitude. Na esteira dos acontecimentos de Newtown, Aurora, Virginia Tech, Christchurch, Suzano e Ohio, torna-se cada vez mais urgente compreender e confrontar acontecimentos como o de Columbine. Nossa arma é reaprender a ouvir a dor que cresce em silêncio no outro e no cerne dos valores da nossa sociedade.

Columbine é lembrado até os dias de hoje sempre que um episódio horrível e similar ocorre, mas boa parte do que sabemos sobre o massacre está errado. Erros factuais e testemunhos duvidosos propagados à época permanecem verdade absoluta para muitos; é fácil dizer que dois meninos rejeitados pelos atletas e pelas garotas, vítimas de bullying, que vestiam sobretudos e descontavam sua raiva em videogames violentos fizeram o que fizeram por essas razões, mas até que ponto isso é real?

Dave Cullen foi um dos primeiros repórteres a chegar à cena e passou dez anos escrevendo Columbine, livro que hoje é considerado a obra definitiva sobre o tema. Passar tanto tempo debruçado neste projeto o fez analisar a postura da imprensa na época com olhos críticos; hoje, Cullen acha que a mídia tentou encontrar um motivo rápido demais, e um episódio que deveria promover uma discussão sobre desarmamento e saúde mental acabou se transformando em um espetáculo midiático irresponsável.

Em Columbine, os episódios recontados são uma mistura das reportagens que Cullen publicou na época com anos de pesquisa — incluindo centenas de entrevistas com a maioria dos diretores envolvidos, a análise de mais de 25 mil páginas de evidências policiais, incontáveis horas de vídeo e áudio, e o trabalho extenso de outros jornalistas de confiança.

Com um faro investigativo apurado e uma narrativa terna e respeitosa, Cullen apresenta o retrato de um assunto ainda infelizmente tão atual, ao mesmo tempo em que critica a cobertura massiva que se sucedeu. E questiona: por que armas de fogo ainda permanecem ao fácil alcance nos Estados Unidos? A possibilidade de se tornar uma celebridade pela mídia também mata pessoas? Será que a imprensa não deveria focar nas vítimas em vez dos assassinos?

Eu tinha aproximadamente a idade dos atiradores, quando o noticiário apontava "Atentado em Escola nos Estados Unidos". Eu não me lembro de ter visto, ou ouvido sobre isso antes, então me recordo, muito nítido na minha mente, como o acontecido mexeu comigo.

Lembro que na época, a intensidade da cobertura da mídia foi agressiva. E o acontecimento mudou a política de segurança nas escolas, a medida que o efeito cascata de Columbine reverberava, levando a inúmeros outros ao longos dos anos. 

Cresci, com muita curiosidade por esse assunto, principalmente sobre Columbine em si. O atentado martelava em minha mente, precisava de respostas. Afinal, porque Dylan e Eric decidiram adentrar a Columbine High e matar cerca de 15 alunos?

O autor, Dave Cullen passou 10 anos pesquisando sobre os acontecimentos, com isso 'Columbine', de maneira extremamente assertiva, não só aborda os passos de Dylan e Eric, como também as consequências para as famílias, para a comunidade e para o mundo; mas mais ainda, deixa claro como a mídia foi o maior agravante da situação e de como a polícia foi negligente.

Para começar, na hora do tiroteio, o xerife estava dando entrevistas coletivas e inventando fatos. Mas ainda pior foram as revelações sobre como o departamento do xerife e funcionários da JeffCo suprimiram evidências de que membros da comunidade já haviam feito denuncias sobre Eric. A família Brown se reuniu com o departamento do xerife 15 vezes, para denunciar o menino, onde nada foi feito. O departamento do xerife negou que qualquer investigador tenha se encontrado com a família Brown, sumindo com as provas.

Outro ponto, ainda mais cruel foram a questão das cartas, Sra. Klebold [mãe de Dylan] escreveu cartas de desculpas e condolências a todas as vítimas. Ela enviou as cartas para JeffCo pedindo-lhes que as entregassem às famílias. Os funcionários da JeffCo não leram ou entregaram essas cartas.

A escrita de Cullen é tão objetiva, quanto sensível. As palavras do autor me forneceram, as  respostas que buscava sobre os eventos, me senti parte daquilo.

Uma das frases mais marcantes pra mim, foi do advogado da família Klebold: "Agora que eles estão mortos, eles precisam encontrar quem odiar." Que refletia muito do que os pais de Dylan e Eric deveriam superar ao longo dos anos, inclusive a mídia foi tão cruel, que os depoimentos deles, estão embargados até 2027.

Columbine não foi uma leitura fácil. Entender a mente dos meninos através das páginas de seus diários, me fez sentir como uma Voyeur. Perceber que muito do que a mídia vendeu sobre eles, estava completamente errada. Eles não sofriam Bullying, não eram intimidados por atletas, não queriam se vingar, não faziam parte da "Mafia do sobretudo", pelo contrário, eles eram os intimidadores. Enquanto Dylan era depressivo com inclinações suicidas, Eric era um Psicopata; juntos eles eram uma bomba relógio.

"Dylan era um depressivo furioso recrutado por um psicopata."  - Essa frase é praticamente a definição do porque, que busquei todos esses anos.

Contudo mais difícil foi ver que até hoje, a comunidade ainda sofre. Enquanto uns, conseguiram superar, a grande maioria ainda arca com as consequências, sejam elas físicas ou emocionais.

Os capítulos sobre as vítimas foram tão preocupantes quanto os sobre os assassinos. Certamente você -alguma vez na vida- ouviu a história da menina que morreu após dizer que acreditava em Deus. Essa história é contada até hoje, mas a verdade é que não foi bem assim, e tudo não passou de um mal entendido. Afinal, sobreviventes com estresse pós traumático, não são narradores muito confiáveis.

Esses dois jovens não planejaram um tiroteio na escola. Columbine foi um bombardeio fracassado. Havia 100 bombas, muitas delas bombas tubo. No refeitório, as bombas maiores feitas de tanques de propano deveriam explodir a escola inteira. Quando as bombas falharam, os assassinos decidiram por outra estratégia.

Este livro, 'Columbine', estava na minha lista há alguns anos, e somente agora, tive a oportunidade de lê-lo, e foi catártico e perturbador na mesma medida. Causou em mim, uma montanha-russa de sentimentos, inclusive, se estivesse escrevendo este texto a mão certamente a página estaria enrugada, de tantas lágrimas que externo nesse momento.

Comentários