Crítica | DUNA


Muitos estão ansiosos para a chegada de Duna (Dune: Part One) aos cinemas. Vale ressaltar que Duna já é planejado como uma primeira parte de uma sequência e abrange apenas o primeiro livro da saga literária, o qual dá protagonismo a Paul Atreides (Timothée Chalamet), esta versão promete um melhor desenvolvimento da trama, efeitos especiais de primeira linha e uma arrebatadora luta galáctica em 10.000 anos no futuro.

O filme é inspirado na epopeia de seis livros de Frank Herbert, publicados entre os anos de 1960 e 80, além de duas continuações póstumas. Assim como clássicos modernos do sci-fi Star Wars e Star-Trek e mesmo medievais, como Game of Thrones, Duna é uma história sobre jogos de poder, exploração, luta e sobrevivência. Em linhas gerais, a trama segue, por um lado, o campo da política e guerra; por outro, um ambiente místico de poderes mentais, sobrenaturais e de fé.

Paul tem sonhos com uma misteriosa jovem (Zendaya) e diversos outros personagens habitantes do deserto. Seu caminho é percorrido entre acreditar nessas visões ou usá-las para abrir novos percursos. No planeta Arrakis, vários nobres disputam o controle da sua principal riqueza, a “especiaria”. Essa substância é produzida pelos vermes da areia, isto é, criatura carnívoras gigantescas habitantes do subsolo do deserto, onde o povo Fremens vive. Quando consumida, a especiaria tem propriedade entorpecentes e são cruciais para viagens espaciais, ou seja, ela permite aos navegadores se guiarem através do espaço.

Como toda essa riqueza, mas escassez de água e temperaturas altíssimas, o povo local sofre com a perpétua exploração. A extração estrangeira da substância torna-se ponto de conflito político-econômico interestelar. Semelhanças com as colônias de exploração na América Latina e na África não são mera coincidência, assim como os atuais conflitos no Oriente Médio, onde pessoas são apenas um empecilho ao extrativismo de barris de petróleo.

A ação começa quando a corte imperial indica os nobres de Atreides para assumir a administração de extração da “especiaria” em Arrakis. Os atuais gerentes, o povo de Harkonnen, são os mais ricos do império por conta do lucrativo negócio e vivem em guerra com a população da região. Explosões, tiros e mortes são planos de abertura para pavimentar a apresentação do poder bélico das tropas de Beast Rabban Harkonnen (Dave Bautista), o qual contrariado deixa o local segundo às ordens do Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård), uma criatura repulsiva e flutuante. Os Harkonnen, claro, terão um plano para recuperar sua riqueza e poder. A parte política da história guarda poucos mistérios, o que nos prende atenção é a parte mística, ainda pouco desenvolvida nesta primeira parte. 

O espectador se verá entranhado no percurso de Paul (Chalamet), nas escolhas dos seus pais Duke Leto (Oscar Isaac) e Lady Jessica (Rebecca Ferguson), além do legado de Atreides. O futuro da família está ligado às visões de Paul no deserto e ao seu povo de olhos azuis, os Fremens.

O final é um anticlímax, algo diferente de produções com sequências já planejadas como O Senhor dos Anéis (2001). Como superprodução, Duna encanta os olhos, apresenta locações belíssimas, personagens curiosos, além de ótimas cenas de batalha, contudo, seus ganchos narrativos são desarmoniosos. Já Timothée Chalamet encara bem o personagem misterioso e confuso. Simplificar uma história complexa, talvez seja o motivo do desacerto entre o espetáculo visual e o impacto emocional.

Duna é um filme que vai surpreender o público, com uma fotografia tocante, o filme entrega fidelidade dos livros com uma narrativa intrigante e que enreda o público naquele mundo e em suas problemáticas, conseguindo deixar extremamente claro as necessidades e o caminho que pretende seguir.

Diferente do filme de 1984, essa versão de Duna se mostra realmente bem executada. A direção não poupou esforços para conseguir fazer o público compreender as questões políticas que envolvem a narrativa, um filme que além da fantasia é uma representação do real, onde se discute sobre questões que nos cercam.

A distopia é muito bem introduzida, o que torna o filme com um ritmo um pouco lento, mas não massante, na verdade, a montagem trabalha muito bem remontando os fatos e intercalando ação com informação. Timóteo e Zendaya entregam uma atuação contida, mas isso não os torna personagens menos interessantes. Todo o elenco se dedica e entrega sentimentos e sensações muito reais. A fotografia brinca com os aspectos de temperatura e clima, sempre carregando um tom melancólico e um ambiente onde o vermelho e azul se destacam. Nenhuma movimentação ou luta é gratuita, muito pelo contrário, tudo que nos é apresentado reside em um local de necessidade muito palpável.  A edição de som é um show a parte, ao assistir o filme senti que poderia fechar meus olhos e apenas escutar o filme, que carrega tantos detalhes. 

Duna - parte I, me fez ansiar pela parte II, como poucos filmes conseguiram. A verdade é que o filme e o livro carregam questões sobre si muito dignas de atenção. O livro que foi lançado em 1965 tem protagonistas femininas muito fortes e relevantes, o que é admirável pela época, as questões políticas levantadas ainda são problemáticas na era atual, e cada vez mais evidentes. O impressionante é que se dominassem as estrelas, eu não duvido que uma guerra semelhante com problemas parecidos se ergueria.

Duna é um filme que vale a pena assistir, reassistir e refletir, realmente um marco em meio aos tempos que vivemos.


** Duna estreia dia 21 de outubro nos cinemas.

Por Stafany Gomes


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